Há uns seis ou sete meses fui chamada para dar aulas de português para um rapaz francês que estava começando a trabalhar aqui em São Paulo, mais precisamente na Vila Olímpia, com o seu tio num escritório de captação financeira.
Lá fui eu para a primeira entrevista, disposta a conversar com ele em inglês ou dar uma arranhadinha no meu francês (um pouco esmaecido, por sinal).
Chegando lá tive uma surpresa muito agradável: trata-se de um jovem de 22 anos que fala 4 idiomas - francês, inglês, espanhol e árabe. Inteligente e interessado, apaixonou-se pelo Brasil logo de saída. Ao me despedir dele, já estávamos falando uma mistura de portunhol com francês, foi muito legal.
E assim começamos a trabalhar de maneira muito eficiente e alegre. Logo descobri que ele adora futebol e fomos explorando semelhanças e diferenças com o objetivo de desenvolver sua fluência.
Como ele aprende muito depressa, passei a trazer artigos de jornal e de revista para trabalhar vocabulário e estrutura.

Na aula passada aconteceu uma coisa muito interessante. O artigo escolhido era sobre dois irmãos grafiteiros que fazem intervenções na paisagem no bairro da Lapa, em São Paulo. E um dos desenhos citados com a respectiva inscrição era de alguns porcos com a frase: "Deem pérolas aos porcos..."
Bem, meu aluno é muçulmano e, embora tenha entendido o vocabulário, não poderia alcançar o sentido da frase. Então procurei explicar que dentro do catolicismo acredita-se que a frase tenha sido dita por Jesus e que tem o sentido de que não devemos dar algo para alguém que não possa reconhecer o valor da dádiva, pois poderá se revoltar com a inutilidade do presente e se voltar contra quem deu. E ainda disse que era como eu entendia, não era uma verdade absoluta. E que os grafiteiros, propondo que se dessem pérolas aos porcos, estavam lançando uma provocação.
Ele achou legal, discutimos se graffiti era arte ou não, se tem isso em Paris também. Qual é a sua opinião sobre as artes visuais contemporâneas, se gosta de exposições, cinema e tudo mais.

À noite, em casa, meu pensamento voltava ao "não deem pérolas aos porcos"... Era uma inquietação, uma coisa rodando na cabeça. No dia seguinte, conversando pelo telefone com minha psicanalista preferida, foram surgindo as questões:
Será que ao não dar as "pérolas" eu estaria mantendo um status quo? Julgando o que serve e o que não serve para outra pessoa? Tentando manipular uma situação? Será que eu sei quem é "porco"? Será que o "porco" pode se transformar se aceitar as pérolas? Eu sou melhor do que o porco? E muitas outras...
Interessante, eu fui educada na religião católica e então as passagens que foram ensinadas acabaram ficando inquestionadas e, justamente para decodificar o conceito para quem vem de outra cultura, acabei tendo a oportunidade de questionar o que para mim era dogma. E o melhor, agora já não é mais... pelo menos esse! Continuamos a desconstrução.
E eu digo que tenho muita sorte, muita sorte mesmo. Se a primeira árvore do post me representa individualmente (original
em ), a segunda, toda colorida, me representa no conjunto com as pessoas com quem me relaciono. O tal do deslumbramento!